sábado, 1 de dezembro de 2012

Juventude Comunista discute Universidade Popular

Por Erica Ramos e Joseane Rotatori*


Apesar de muito se propalar a ideia de direito à educação como necessária à emancipação de uma sociedade, vivemos um processo crescente de mercantilização desse direito básico e assegurado pela Constituição Brasileira. Nas reflexões iniciadas na III Reunião do Grupo de Trabalho Nacional de Universidade Popular – GTNUP sinalizamos a necessidade de promover um sistema educacional que possibilite o acesso universal de toda à população e que reflita, sobretudo, sobre a nossa organização em sociedade.


Apesar dessa pretensão, o Movimento pela Universidade Popular (MUP) toma como ponto de partida os questionamentos acerca do nosso atual modelo que se orienta, predominantemente, pela meritocracia - como diretriz fundamental do acesso -, pela privatização do ensino– onde há busca incessante pelo lucro, em detrimento, de uma educação de qualidade. A respeito do primeiro aspecto, explicitamos que tanto o sistema de cotas quanto a abertura de cursos superiores voltados a capacitar movimentos sociais e grupos específicos situa a preferência pelo mérito antes como valor cultuado no universo acadêmico do que como princípio necessário para a educação que queremos. A educação como direito, portanto, não se destina a agraciar os mais bem colocados em vestibulares que mensuram o conhecimento escolar, mas se volta a reparar situações históricas de acesso desigual à educação formal. Entretanto, tais ações têm ocorrido mais à margem da política educacional de sorte a questionar as convencionais formas de acesso e a meritocracia, não se colocando como alternativa para repensar a educação como via de transformação social.
Quanto à privatização do ensino, vimos que o Estado, em vez de elaborar políticas sociais que buscam a universalização não somente do ensino básico, mas também, do ensino superior, investe em programas como o ProUni, projeto que amplia o acesso ao ensino superior privado mas com o custo do envio de montantes megalomaníacos aos tubarões da educação. Outra forma de popularização verifica-se com a massificação da educação superior que para alguns estratos da população é apontada como uma via de ascensão social. Seu contraponto incide no fato de essa expansão do ensino se dar a partir de uma flexibilização curricular e das diretrizes básicas que devem acompanhar a oferta de cursos superiores limando a qualidade da educação superior. Ainda nesse Eixo, programas como o REUNI ampliam o número de vagas, mas são desprovidos de um debate que gere uma real mudança, em todos os níveis, desde a construção democrática de currículos preocupados com sua inserção social até, e principalmente, o acesso das classes mais desfavorecidas e excluídas.
Durante a III Reunião do GTNUP foram feita duas campanhas de grande importância no espectro dos debates sobre educação pública, gratuita, de qualidade e, sobretudo popular. A primeira propõe a luta contra o PL 2177 – Código Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação. Esse PL trará uma verdadeira submissão das universidades públicas e federais ao capital privado, uma vez que as universidades públicas terão cada vez mais apoio das fundações de apoio privadas e agências de fomento ao invés do financiamento público de qualidade. Essas fundações privadas irão condicionar o desenvolvimento de suas pesquisas a interesse do mercado e não da classe trabalhadora, no geral.
Já a segunda campanha, foi contra a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH), criada pela Lei nº 12.550/2011. A implementação desse projeto determina a atuação dos Hospitais Universitários (HU’s) e/ou Hospitais das Clínicas (HC’s) na contramão do papel social que a saúde pública deve cumprir, ao privatizar mais de 45 hospitais em todo o país e romper com o monopólio do SUS. Esses hospitais perderão a sua autonomia universitária, deixando de ser um espaço de ensino, pesquisa e extensão de qualidade para se submeter a uma lógica de mercado, com cumprimento de metas e precarização do regime de trabalho. É uma privatização de dois bens públicos, a educação e a saúde. Esses dois bens não podem ser submetidos à lógica do mercado.
Apesar de a discussão a respeito da educação popular explanar sobre o acesso à educação, ela prima, sobretudo, pelo conteúdo que é reproduzido/produzido nessa atividade. A educação que dispomos, mesmo que no seu mais alto grau de excelência, valoriza e inserção profissional no mercado de trabalho e menos a superação de um sistema de produção/reprodução assentado na desigualdade. Em vista disso, reivindicamos uma educação que vise o rompimento com a reprodução da sociedade de classes em sua construção, rumo à transformação social e a não subordinação das necessidades humanas aos interesses governamentais e do capital, de forma que desconstrua a legitimação da manutenção da ordem vigente. 

* Erica Ramos e Joseane Rotatori são militantes do PCB e mestrandas na Universidade de Brasília.

sábado, 29 de setembro de 2012

Camarada Erica Ramos apresenta reflexão Mulheres na disputa por Soberania e Segurança Alimentar no campo


Mulheres na disputa por Soberania e Segurança Alimentar e contribuições para a luta feminista no campo

                                                                                                         Erica Ramos[1]

            Apesar de ser recente o engajamento de mulheres organizadas em movimentos próprios do campo como o MMC e o Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB) e organizações feministas, não ocorre o mesmo com a violência a qual elas denunciam. Sua condição de mulher camponesa procura fazer resistência a uma dupla forma de vulnerabilidade ao interseccionar a dominação de gênero e a sofrida pelo campesinato. Pretende-se apresentar o caso específico das mulheres que vêm sua racionalidade ser subjugada e marginalizada tanto pelas instituições sociais que reproduzem o patriarcado, quanto pela a racionalidade científica e econômica marcada pelo capitalismo.

            No âmbito da agricultura, a divisão sexual do trabalho ocorre tal qual no meio urbano como uma separação e hierarquização de atividades entre os indivíduos. Enquanto os homens assumem atividades que estão mais ligadas à produção externa e o comércio como o cuidado com os animais de grande porte, o abate e a lavoura para venda, as tarefas de manutenção do ambiente doméstico são em grande medida ocupadas pelas mulheres, de modo que, por não gerar renda diretamente, o trabalho feminino acaba por ser subvalorizado (MELO, 2006). Isso implica que as mulheres sejam relacionadas ao campo da reprodução social e menos da produção, apesar de ambas as categorias apenas refletirem dimensões da atividade laboral quando mais próximas ou menos dos proventos financeiros

            Mesmo participando da cadeia produtiva, o trabalho doméstico tende a ser visto como um não-trabalho e sim como uma inclinação natural para essas atividades.            Dessa forma, as atividades femininas acabam por recair no campo da natureza “natural”, menos interpretada como uma construção social operada num modo de vida em que os agentes exercem suas atividades a partir de escolhas, contingências e significados para a sua existência.

             Mesmo subvalorizadas, as atividades exercidas pelas mulheres são de extrema importância para a reprodução da família, especialmente em ambientes de extrema pobreza. São elas as principais responsáveis pelo consumo da unidade familiar, assumindo o controle pelos hábitos alimentares da família (PANZUTTI, 2006; PORTELLA e SILVA, 2006). Ainda segundo Menasche et al (2008) a produção para o autoconsumo é atividade preponderantemente feminina além de serem elas as responsáveis pelas trocas dentro da comunidade que possibilitam diversificar o cardápio da unidade familiar e atualizar os vínculos sociais. A construção dos hábitos alimentares são antes pensados, elaborados e significados e não meramente comidos para sanar necessidades físicas e corporais.

            Visto isso, a contribuição dessas mulheres vai muito além da saúde das populações rurais. Relaciona-se, em última instância, à reprodução e à produção de valores e significados culturais em face de um horizonte cultural precedente. Não se trata aqui de excluir a participação de outros atores sociais nos padrões de sociabilidade desenhados, todavia é importante destacar que o trabalho feminino exige esforço teleológico e que a partir daí diferentes símbolos serão construídos em torno da produção e consumo dos alimentos.

            Cabe também enfatizar as mudanças sofridas no espaço, no tempo e no tipo de trabalho exercido pelas mulheres face às alterações provenientes do aprofundamento das relações capitalistas no campo. Analisando a produção algodoeira no Leme-SP, Nilce Panzutti (2006) constata que a forte mecanização do campo promoveu a individualização do trabalho e a redução da das atividades femininas ao espaço doméstico. O homem com o auxílio do trator, da colhedeira entre outros artefatos, prescinde de força-de-trabalho para tocar o cultivo da lavoura.

            Ainda sobre a questão de gênero no campo, Menasche et al pontua que a redução da propriedade e a grande oferta de alimentos no mercado culminaram numa redução do autoconsumo e do trabalho feminino no roçado. Contribuiu ainda para a redução da produção, o desaparecimento dos moinhos coloniais destinados ao preparo dos farináceos (espaço de trabalho tipicamente feminino), bem como a compra de sementes e mudas em detrimento da aquisição no interior da propriedade mediante colheita e secagem das sementes. Ainda outros fatores podem ser destacados como a dificuldade de acesso à água e redução da biodiversidade das florestas.

            Dito isso, argumenta-se que a elevada mecanização do campo ajudou a aumentar a divisão sexual do trabalho e reduziu a importância e o espaço de trabalho da mulher, sendo apontada como uma das causas para a redução maior da população feminina no campo em relação à masculina. Isso reflete uma erosão dos valores simbólicos referentes ao modo de produção/reprodução que garantia o pertencimento comunitário e territorial dos indivíduos.

            A articulação política de mulheres, especialmente a partir de 1980, vem justamente fazer frente à reprodução do patriarcado e ao modelo de desenvolvimento rural que o reduz a produção agrícola. Em que pese o fato de já tentarem incluir nas pautas do Movimento dos Sem Terra (MST), Confederação Nacional dos Trabalhadores (CONTAG), Federação Nacional dos Trabalhadores (FETRAF) entre outros, constituir movimentos especificamente voltados para a questão da mulher rural, permitiu que suas pautas fossem priorizadas. Em especial a década de 2000, além das mulheres já organizadas politicamente no MMC e no MIQCB, ocorrem as sucessivas aparições em manifestações públicas como a Marcha das Margaridas (2000, 2003, 2007 e 2010). Na terceira marcha, dentro das suas reivindicações também é inserida a segurança alimentar e nutricional como um eixo de luta.

            Para Siliprandi (s.d.) tal mobilização busca a afirmação de sua identidade e racionalidade como mulher, articulando-se não só em torno da questão alimentar, apesar de essa ser uma pauta com bastante eco dentro dos movimentos feministas do meio rural. Também passam a organizar-se dentro da Via Campesina, com o MMC em 2000, refletindo uma disputa por soberania alimentar e de desenvolvimento rural, em conjunto com outras categorias identitárias.

            Muito embora, tal grupo social tenha sido amplamente afetado pela modernização agrícola e, consequentemente, pelas mudanças dos hábitos alimentares, o contexto de luta pela soberania e segurança alimentar é uma arena que pode favorecer a sua participação no meio político por ser uma pauta que simbolicamente e culturalmente é ligado a elas. A abertura destes espaços é fundamental para que se possa pensar que modelos de organização produtiva consoantes aos interesses das mulheres.

            Entretanto, essa maior inclinação das mulheres para a questão alimentar não poderia estar novamente as restringindo ao espaço doméstico e do cuidado com a família? Em que pese o fato de ser um campo majoritariamente feminino, a organização  política de mulheres possibilita desestabilizar os antigos papéis de gênero e redesenhar esse modelo de produção familiar respeitando a sua autonomia individual. O orquestramento das lutas em torno da soberania alimentar, contrapondo-se ao processo de modernização conservadora no campo, conduz a um processo no qual a disputa possa se fazer também em outras frentes de interesse como o reconhecimento do espaço da mulher na agricultura familiar. Destaca-se, portanto, a possibilidade de se projetar que papel elas querem assumir e conformar outras formas de racionalidades na construção da soberania alimentar nos distintos territórios.



[1] Assistente Social, Mestranda FUP/UnB, militante do PCB,Base Heron de Alencar/ UnB
 

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

PCB presente em ato a favor da reeleição de Chávez




O PCB esteve presente, na manhã dessa segunda-feira (24/09), em ato em frente ao Consulado da Venezuela no Rio de Janeiro durante o qual militantes e forças políticas e sociais anti-imperialistas entregaram ao cônsul daquele país, Edgar González, o manifesto "Brasileiros com Chávez, pela Venezuela e América Latina!", em apoio à reeleição de Hugo Chávez nas eleições de 7 de outubro.

De acordo com o secretário-geral do PCB, Ivan Pinheiro, a permanência de Chávez no Palácio de Miraflores "deve servir à perspectiva do avanço do processo de construção do socialismo", o que só ocorrerá "com a mobilização e organização dos trabalhadores na construção do Poder Popular".

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quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Camarada Carlos Nelson Coutinho, presente!


A Base Heron de Alencar do Partido Comunista Brasileiro (PCB) manifesta seu imenso pesar pela morte do camarada Carlos Nelson Coutinho, intelectual e militante comunista, deixa para os que lutam por uma sociedade comunista um exemplo de coerência e retidão.

Camarada Carlos Nelson
Presente!

Base Heron de Alencar - PCB




segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Nota da Base Heron de Alencar do PCB sobre o Segundo Turno na UnB



O que pensam nossas/os militantes sobre o segundo turno da consulta para a Reitoria da UnB





            A reta final da consulta para a reitoria da Universidade de Brasília está se aproximando. Nesse segundo turno, a universidade enfrenta o risco de ter como reitor o representante dos setores mais conservadores da universidade. Para entender o que representa a candidatura da chapa 86, de Ivan Camargo e Sonia Bao, é preciso considerar a atuação política desta chapa e também dos setores que se aglutinaram em torno desta candidatura e, ir além, reforçar quais são os impactos dessa atuação política para a universidade. Para os comunistas a defesa do projeto de educação pública, gratuita, de qualidade e sobretudo popular se encontra em pleno antagonismo com o projeto de educação privatista e anti democrática dos parques tecnológicos, da violência policial, da falsa meritocracia, etc.
            O argumento da "Universidade Meritocrática" é certamente um dos mais repetidos em ambos os turnos dessas eleições e é, também, um dos mais elitistas. Debater a meritocracia dentro dos padrões desenvolvidos historicamente pela política educacional brasileira é fechar os olhos para as disparidades sociais e educacionais, bem como ignorar a reprodução escancarada da sociedade de classes, e suas contradições, na educação brasileira e na Universidade de Brasília. A defesa de uma universidade sobre estes padrões é, necessariamente, a defesa da universidade cada vez mais descolada da realidade e distante do protagonismo que deve assumir junto a sociedade e suas parcelas historicamente excluídas da integração e organização do ensino superior. A Universidade Pública tem sido usada como um centro de reprodução do saber, da formação profissional e da ideologia dominante.
O que em tese deveria ser um espaço para a formação do senso crítico e para a produção de um conhecimento a partir da classe trabalhadora, e voltado para ela, mais do que nunca vem funcionando de acordo com interesses privados.
            O estado em que se encontra a educação brasileira, refletido também na UnB, não pode ser entendido apenas como um problema de ordem administrativa, mas deve, sim, ser observado como reflexo de uma concepção de Estado que prima por parcerias que beneficiem a iniciativa privada e seus grupos responsáveis, submetendo a universidade à uma lógica elitista, privatizante e corrupta. É nesse sentido que as fundações privadas, parasitas das universidades brasileiras, se apoderam dos recursos e capacidades da UnB. Estas mesmas fundações, envolvidas em escândalos de corrupção país afora, vivem hoje fortalecidas pela conivência e aceitação da atual reitoria da universidade, da qual Márcia Abrahão fez parte como decana de graduação. A escalada dessa política contraditória se nota mais claramente nas gestões Timothy Mullholand e Lauro Mohry, ambas gestões representadas no projeto político de Ivan Camargo e Sonia Bao. Não há discurso que mascare que ambas as candidaturas, neste segundo turno, estão longe de tocar o descredenciamento do parasitismo representado pela FINATEC e demais fundações. Em especial a candidatura da chapa 86, ponta de lança do grupo político que se forma, dentre outros aspectos, a partir das demandas das fundações privadas, tem buscado fortalecer ainda mais a permanência do modus operandi do privatismo, idealizando uma proposta que não fará outra coisa além de abrir ainda mais a universidade para as fundações privadas e grupos econômicos que apontam para um projeto neoliberal. Estamos falando do chamado "parque tecnológico", que já foi derrotado na UFRGS, o que a retirou, em parte, de sua posição submissa e comprometida com a formação de conhecimento destinado ao atendimento de demandas empresarias e não sociais. A UnB não é um balcão de negócios e, portanto, não podemos permitir que tal política se acentue na universidade.
            Uma das conquistas mais valiosas para a democracia da universidade ainda não foi plenamente conquistada e, pior, vive sob o fio da navalha. A paridade para a consulta eleitoral esteve ameaçada pela atuação dos setores conservadores desde sua primeira aparição e foi novamente ameaçada por ação judicial protocolada pela atual direção da ADUnB, já conhecida por seus conchavos absurdos e por seu apoio irrestrito à chapa do conservadorismo nesse segundo turno. A atuação política dos candidatos reacionários sempre se orientou no sentido de retirar mais um direito conquistado pela UnB, isso fica claro quando estes se apresentam invocando a criminalização da paridade e se esquecem da autonomia e da capacidade da universidade se gerir.



Dizemos não a chapa 86 "A UnB Somos Nós", por entender que o caráter público da universidade é antagônico ao projeto apresentado pela chapa, o que deixa claro que a UnB não são eles. Reforçamos que a universidade pela qual lutam os comunistas, a universidade popular, se apresenta como projeto alternativo ao projeto de educação das elites, este defendido no programa da chapa 86.




terça-feira, 28 de agosto de 2012

Mulheres e Arquitetura


Mulheres e Arquitetura
Frank Svensson*

(Trabalho apresentado no XXVIII encontro nacional de estudantes de arquitetura e urbanismo – Brasília, 11 a 18 de julho de 2004).

Prof. Dr. Frank Algot Eugen Svensson
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
Universidade de Brasília
A questão da equiparação das mulheres aos homens está presente com freqüência, nos jornais, nas reuniões de trabalho e nas assembléias políticas do nosso tempo. Muitas mulheres se tornaram conscientes de como a sociedade as condiciona e lhes limita a vida. Apesar da compreensão que alguns homens apresentam pelo problema, pode-se constatar que a sociedade continua a impor padrões de discriminação social. Ainda é diminuta a representação feminina no Congresso Nacional, bem como nas Câmaras Estaduais e Municipais. No campo da formação de profissionais para a arquitetura aumentou, no entanto, consideravelmente o número de arquitetas, mas é de se perguntar se aumentou o interesse para com os problemas da mulher em relação à arquitetura. Principalmente no que concerne a melhores condições de vida e trabalho, ou seja, a um melhor uso do tempo.

Uma sociedade dos homens e outra das mulheres?
Em muito a nossa sociedade parece ser dividida em uma dos homens e outra das mulheres. As relações empregatícias são diferentes, as visões de mundo são diferentes, e a quantidade de trabalho é maior para as mulheres. Já se sabe que quando consegue ser assalariada, tem que dar conta, além do trabalho profissional, também do trabalho doméstico. Quando consegue obter um emprego geralmente ainda o faz em profissões distintas das dos homens. Basta observar o nosso próprio lugar de trabalho, a UnB. A maioria do pessoal burocrático e a maioria das turmas de limpeza são mulheres. Já a esmagadora maioria dos chefes, é de homens. Logicamente isso implica em experiências de vida distintas.

O trabalho doméstico desperta pouco interesse como objeto de arquitetura
Somos de opinião que a posição dada à mulher na nossa sociedade, pode ser lida, também, na arquitetura do edifício e da cidade. Uma área de manifestação imediata da não equiparação diz respeito ao trabalho doméstico. Uma desigualdade que se manifesta de formas distintas, conforme o nível econômico da família, mas que persiste em todos eles. Concordamos com Samora Machel, o qual, numa publicação do FRELIMO sobre o problema da equiparação, fez ver que o mesmo não se resolve simplesmente por uma atitude de ela lava e eu enxugo. Mas como é então que deve ser encarado? E por que é que as trabalhadoras da arquitetura não movem uma luta mais intensa no sentido de tal esclarecimento? Por que não se dedicam mais à pesquisa habitacional? Por poderem, como membros da alta classe média, dispor de serviçais e, assim, propiciar a exploração da mulher pela mulher dentro do próprio lar?
A Sociedade, em seu desenvolvimento capitalista, dissolveu a transmissão natural, de adultos para crianças, do conhecimento quanto ao trabalho.  Já em tenra idade elas eram julgadas aptas a participar nos afazeres dos pais. Em tais condições não se podia falar, propriamente, de infância como essa é entendida hoje. A criança era prontamente incorporada ao mundo dos adultos, absorvendo os seus valores e aptidões. Isso tinha a vantagem de assegurar um sentimento de participação e de continuidade da vida em família. 
Para o modo de vida que a chamada classe média hoje leva, já não é assim. Só como adolescentes, as crianças passam a ter contato com a produção. Vivem cedo a divisão social do trabalho e perdem a visão de conjunto do processo produtivo, bem como de sua reprodução. Reflete-se à escala da família, o fato da experiência do local de trabalho ser encaminhado para o pensar de engenheiros e similares. A tendência em especializar e em setorizar, no intuito de tornar o trabalho mais rentável, separou a casa da oficina, o trabalho produtivo da vida doméstica e do lazer. Surgiram dois mundos: o mundo visível dos homens e o mundo privado e não percebido das mulheres.
O trabalho produtivo passou a ser assalariado, e como deve ser lucrativo passou a ser organizado de forma a se tornar o mais eficiente possível. Mas aquele trabalho necessário à reprodução da força de trabalho, a criar uma nova geração que assegure as relações sociais estabelecidas, foi liberado da produção propriamente dita. Desenvolve-se, hoje, no recôndito dos lares. Tornou-se privado e não assalariado, e como não se exige que seja assalariado também não se exige que seja organizado de forma efetiva. Simplesmente não é contado como trabalho e, assim, pouco conta para os teóricos e para os práticos da arquitetura. 
Tradicionalmente o trabalho doméstico pode ser visto como de duas dimensões. Uma que implica em esforço físico: cozinhar, lavar roupa e louça e manter a própria casa limpa. Um trabalho monótono, desligado do contexto e sem fim. A outra dimensão é de caráter social, em se tratando das mesmas pessoas que se cuidam, se consolam e convivem entre si. Algo difícil de programar com mais rigor, não permitindo limites mais nítidos entre tempo de trabalho e tempo de lazer. Já o trabalho do homem seria estritamente programado. Depois das oito horas de trabalho, pode voltar para casa e iniciar o seu tempo livre a ler jornal do sofá ou a assistir televisão. Como depende de outros, o tempo da mulher depende da disponibilidade dos outros. Além disso, não dá para saber antecipada-mente quando será necessário atender às crianças. Ou quando algo vai ficar sujo. O trabalho do homem é palpável e visível. Mas quem é que pode ver o apoio e o consolo dado pela mulher? Só ao nos tornarmos conscientes da monotonia, da repetição, da solidão e da exploração contida no trabalho doméstico, é que começamos a duvidar das imagens idealizadas do mesmo.
Estamos todos de acordo com o fato de que melhorar as condições de produção é indispensável ao desenvolvimento da sociedade. Mas indispensável, também, é resolver melhor as atividades de reprodução da produção. Algo que diz respeito a todos e não somente às mulheres. Da forma como as coisas são aceitas hoje, como um setor reprodutivo oculto dentro dos limites da moradia, enquanto o setor produtivo se desenvolve lá fora de casa, o caráter privado da vida em família é exposto a enormes tensões. Por um lado tem que enfrentar a crescente especialização, automação e anonimato da divisão social do trabalho, bem como o avanço tecnológico da sociedade e, por outro lado, tem que garantir o próprio desenvolvimento humano da sociedade. Como resolver isso quando da configura-ção dos locais da vida e do trabalho?
O trabalho da mulher na casa, cozinhando e cuidando de filhos, motivou locais de diferentes tipos, conforme a região, ou melhor conforme o tipo de economia da região. Em Minas Gerais a cozinha grande era o principal compartimento da casa. Já no Nordeste era na grande varanda posterior onde se dava o trabalho doméstico. Nas casas senhoriais dos donos de terra e da burguesia compradora, era nítida a diferença entre os lugares dos homens e os lugares das mulheres. Os lugares dos homens davam para a rua ou para a varanda anterior, e eram dotados de janelas. Os das mulheres davam para o quintal ou para o pátio e muitas vezes nem davam para o lado de fora. Isso para não falar no lugar da(s) criada(s) que até hoje são projetados na escala 1:200 junto à entrada de serviço, ou no fundo do quintal.
Com a adoção do funcionalismo passamos a querer um lugar para cada função. Dentro de casa: dormir ═ dormitório; estar juntos ═ estar; assear-se ═ banheiro; cozinhar ═ cozinha etc. Já os espaços entre os nossos prédios tiveram, na maioria dos casos, os seus lugares reduzidos a três funções: bancos para os velhos, caixas de areia para as crianças e pátios e ruas pavimentadas para os carros. Essa reduzida especialização que exclui a vida dos adultos em comum, elimina a possibilidade de formação e desenvolvimento de uma cultura socializada. 
A socialização do trabalho inerente à reprodução das forças produtivas constitui um campo de luta, ensino e pesquisa, no qual as arquitetas mulheres têm uma enorme res-ponsabilidade. Não podemos negar que satisfazer as necessidades das mulheres, quanto      à arquitetura e ao planejamento, também é bom para os homens. Mas soluções que impliquem mudança de comportamento das mulheres implicam, também, mudança de com-portamento dos homens. Teremos que dedicar mais tempo ao trabalho doméstico. E que-remos isso?
Não basta entender o mundo para poder mudá-lo. Mas para transformá-lo é necessário entendê-lo e agir em função de tal entendimento. Exigir melhores soluções para o trabalho doméstico está ligado ao processo de conscientização quanto ao mesmo. Como o trabalho feminino doméstico prima por ser invisível, por não ser percebido pela visão oficial da sociedade por não ser definido com a mesma linguagem com que os políticos definem o mundo, muitas mulheres, também não vêem os seus próprios problemas como seus. Para tornar seu mundo visível é indispensável que as próprias mulheres analisem melhor as suas próprias experiências e formulem os seus próprios problemas, inclusive em termos de arquitetura e urbanismo.
Tão importante como conhecer melhor a problemática do trabalho da habitação é também conhecer os problemas da melhor habitabilidade dos locais do trabalho produtivo. Da mesma forma é importante conhecer as implicações das relações entre os locais da habitação e os locais do trabalho produtivo e os problemas específicos que apresentam para as mulheres. Ou elas não são, porventura, expostas a problemas maiores que os homens no que diz respeito a transportes urbanos? Se os transportes coletivos não são bons, passa a haver necessidade de dois automóveis numa mesma família. E para tanto é necessário dinheiro. Ou então serviçais, e com eles contradições de classe. E para a imensa maioria das famílias que não podem ter um único carro?
È tempo de uma maior contribuição das mulheres à pesquisa de uma melhor habitabilidade de todo o contexto urbano.                    
                 
* Professor titular (aposentado) da FAU-UnB, membro do CDES da Presidência da República. 

terça-feira, 21 de agosto de 2012

PCB apoia a Chapa 88 para a reitoria da UnB


Os professores, técnicos e estudantes comunistas da Universidade de Brasília,
representados pela Base Heron de Alencar do PCB na UnB
apoiam de forma militante a chapa 88 para a reitoria da nossa Universidade.

Base Heron de Alencar
Partido Comunista Brasileiro - PCB